Sábado, 7 de Fevereiro de 2009

Achados no baú (13)

 

Ao contrário do que já se tinha tornado um hábito regular, há muito tempo que não calha ouvir falar deles nem escutar-lhes um disco mais recente. 

Por isso me lembrei de recordar hoje a Instabile, não apenas em termos musicais mas também pelo ambiente de simpatia e de camaradagem que era fácil os seus membros criarem à sua volta. 

E faço-o através de uma prosa que em 1998 tive o prazer de alinhavar para a folha de sala de um concerto realizado na Culturgest e que foi, estou certo, uma agradável revelação para os muitos que então desconheciam a orquestra.

 

 

Os virtuosos de Noci

 

Se me são permitidas duas referências de carácter pessoal, a primeira vez que dei pela existência da Italian Instabile Orchestra foi em finais de 94, há cinco anos precisos, através da audição de um concerto realizado por esta orquestra no 28º. Festival de Jazz Ost-West, que anualmente se realiza em Nuremberga, numa gravação cedida pela Rádio da Baviera que, pouco tempo depois, tive a feliz oportunidade de retransmitir num programa de jazz da RDP-Antena 2.  (1)

No ano seguinte, um segundo contacto musical «ao vivo» e, sobretudo, a experiência pessoal e directa do caloroso ambiente de amizade e companheirismo que pude surpreender entre os membros da Instabile aquando da sua primeira visita ao nosso país  – para uma actuação no Festival  de Jazz do Porto de 96 –  vieram reforçar a curiosidade em descobrir com mais delongas o segredo da identidade tão profunda e enraizada de um jazz que era para mim desconhecido e que me habituei, com o tempo, a integrar no leque mais alargado das minhas preferências musicais.

E o facto é que, a partir desses dois momentos de revelação, nunca mais deixei de seguir a trajectória desta orquestra, sobretudo porque ela sempre me pareceu incorporar uma estimulante vontade de originalidade e de rebeldia face à acomodação que tantas vezes nos ataca em termos de fruição mas também de divulgação, naquilo que é o exacto reflexo e tradução da oferta do mercado discográfico.

Fundada em 1990 por ocasião do Festival de Jazz de Noci pelo trompetista e compositor Pino Minafra, desde a primeira hora um dos seus principais animadores, a ideia-base que presidiu à formação da Instabile foi a de juntar, num mesmo organismo musical altamente democrático no seu funcionamento, um conjunto de músicos de primeiro plano ao longo da História do jazz italiano ou que se salientaram nas suas expressões contemporâneas, todos solistas de grande qualidade e notoriedade e muitos deles interessados pelo ofício da composição.

Seria longo e afinal inútil, face à própria essência desta tão original orquestra, aqui dar conta dos inúmeros e relevantes momentos que atravessam as carreiras mais antigas ou mais recentes dos membros desta Instabile.  Entretanto, uma das suas características mais dignas de registo é, precisamente, a coabitação harmoniosa de músicos de gerações e percursos musicais em muitos casos bem diversos, uns implicados no movimento do free-jazz italiano dos anos 60, outros também activos no domínio da música erudita contemporânea italiana, mas todos eles militantemente empenhados na incorporação, no jazz que criam, de elementos identificadores das suas próprias raízes culturais.

Se, no campo do jazz, em termos meramente instrumentais, quisermos fazer uma comparação entre a tradicional imagem de eficácia e rigor que nos habituámos a associar às big bands norte-americanas e a aparente postura de desprendimento e assumida imperfeição que se descobre numa orquestra com as proporções da Instabile, é provável que possamos concluir que as diferenças mais notórias residem, precisamente, numa atitude cultural.
 
Retomando um pouco uma hipótese especulativa que já formulei algures, julgo que, no primeiro caso, encontramos os reflexos da imagem de coesão e disciplina perfeccionista das bandas militares, enquanto que, no segundo caso, parece ser mais visível a evocação da muito especial criatividade e postura de grupos instrumentais de origem popular, em particular dos agrupamentos musicais de aldeia ou das bandas filarmónicas amadoras.


Parece-me, no entanto, que seria abusivo entender-se no espírito e na música da Italian Instabile Orchestra um posicionamento de contestação e rejeição, levadas às últimas consequências, de outra natural fonte de inspiração cultural que seria impossível estar arredia da sua música  – a matriz do melhor e mais criativo jazz norte-americano –  sob pena de estarmos a falar de outra linguagem musical que não a do próprio jazz.

Não é assim raro descobrir-se, em várias das peças que compõem o repertório da orquestra, a confluência de sinais culturais muito diversos:  desde as partes swingadas à maneira de uma big band clássica até aos sons de uma charanga de circo, desde a utilização deliberada de alguns clichés de entoação e articulação instrumental próprios das primeiras duas ou três décadas do jazz até à conjugação e justaposição de processos de composição ou estruturação formal mais ligados à música erudita contemporânea, passando pelo pastiche das trupes e filarmónicas, pelas mais explosivas e agressivas incursões da memória do free-jazz, pela singeleza e ingenuidade dos folclores ou, mesmo, pela influência da canção popular ou da música para o cinema.

Neste sentido, a partir da música produzida no concerto de hoje, não será estranho confirmarmos no nosso próprio imaginário imagens e sons que, de forma díspar e fragmentada, poderemos associar a Brecht ou a Weil, a Fellini ou a Moretti, a Ornette, Morricone, Monk, Satie, Ellington, Rota, Ayler ou Mingus.
 
Mas, acima de tudo, poderemos contar com a energia e a entrega totais de um punhado de músicos de grande talento, estabelecendo colagens musicais inovadoras e riquíssimas e reforçando com espírito de humor e sarcasmo o lado lúdico do acto criativo, na transposição para a produção musical e para a movimentação de palco de elementos próprios do teatro e de outras artes de representação, até das feiras e romarias populares, num constante desafio à participação e disponibilidade auditiva e também criativa do próprio público.

A propósito deste constante vaivém entre o erudito e o popular e citando o pianista e compositor Giorgio Gaslini  – personalidade de referência, à qual ficará indissociavelmente ligado o próprio acervo musical da Instabile –  o êxito da orquestra deve-se ao facto de se ter chegado à criação de um mood, de uma expressão tímbrica absolutamente própria, muito diversa da das orquestras napolitanas, reconhecível por entre bandolins e spaghetti, ou da do La Scalla, com um chefe absoluto e uma estrutura piramidal, hierárquica.

Em boa verdade, como disse um dia Ornette Coleman a seu propósito, a Italian Instabile Orchestra é um verdadeiro «conceito colectivo de democracia sonora».

(1)  Um Toque de Jazz

                                                                                                  (Novembro, 1998)

 

Fotos: Manuel Jorge Veloso


 

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